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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

escape


pudesse viver a par do belo,
mesmo o belo das pequenas coisas:
o sorriso, o sol, a lua,
a beleza desenhada dos teus traços numa tela.
Contudo, por certo, o tédio chegaria,
porque é da natureza o enfado
com o que é habitual e assim,comum.
pudesse viver a par do belo
até não querer mais a tua beleza...
bom escape seria para a tristeza
do feio destes dias.

domingo, 28 de outubro de 2012

praia




foi bom esta tarde passada na praia.

por momentos esqueci estes dias e tudo o que é revoltante: as traições, as injustiças e as iniquidades.

estava ali o sol, a areia e mais lá ao fundo o mar que cumpria uma recta no horizonte. mais perto a rebentação.

havia um casal passeando, um cão levado pela trela, uma criança a brincar na areia.

nós conversámos sobre quase tudo. os nossos dias e algumas noites, a política, a amizade, os livros, a música. não falámos de amor.

tirei o pullover e fiz questão de deixar os raios de um sol outonal aquecer a minha pele. espreguicei-me várias vezes. estava quase em paz, por momentos em paz.

a certa altura o som das vozes era um gostoso ruído de fundo que me fazia sentir acompanhado.

no meu egoísmo, não disse que era bom estar ali na companhia dos amigos. saberiam eles que tantas vezes penso quantos momentos assim ainda me serão dados viver?

e não falámos de amor

porque o amor tem o seu quê de impermanência e eu não queria que aquele momento terminasse.

deixemos o amor de lado. não precisamos estar sempre a falar de amor. não faz bem consumir análise sobre análise com o objectivo de concluir que passamos grande parte da vida atrás de um sentimento que nos está sempre a fugir.

alguém decidiu dar um mergulho no mar. foi revigorante imaginar a água fria a escorrer na pele. só a imagem é de uma beleza perfeita.

acendi outro cigarro e fumei com todo o tempo do mundo.
os gestos das suas mãos davam sentido às palavras.

não ouve um fim. a praia ainda lá está e nós ainda ocupamos as mesmas cadeiras. o sol ainda brilha e o mar, sempre o mar, ainda convida. alguém dá um mergulho e as vozes ainda se ouvem.

fala-se de tudo e de nada, mas não se fala de amor.



terça-feira, 10 de maio de 2011

certeza


nos teus passos vou encontrando o meu caminho e nas tuas palavras a minha voz.
queria despir o sentimento, torná-lo nu, não precisar de palavras para dizer o que é simples.
a tua sombra acompanha-me quando não estás presente e é com ela que o diálogo é mais intenso.
depois, quando regressas, tudo se acalma e há só certeza.






segunda-feira, 4 de abril de 2011

corredor


no sonho eu caminhava pelos corredores da casa, escutando o mínimo ruído, tentando identificar um sinal de vida. as paredes estavam cobertas por papel de parede dum tom verde seco com desenhos, lembrando o papel de parede de algumas casas inglesas. sobre este descansavam ou morriam, lentamente, cópias de quadros antigos, paisagens holandesas intercaladas com madonas renascentistas, acompanhadas da respectiva corte de santos. a iluminação era suficiente, não deixando o corredor cair numa penumbra críptica.

os meus passos eram seguros mas cautelosos. os sonhos podem ser traiçoeiros pelo que deve ser exercida alguma cautela, quando caminhamos por um corredor com demasiados ângulos rectos. nunca sabemos o que esconde uma esquina, uma mudança de direcção.

estaquei junto a uma porta que abri. tratava-se da cozinha e lá dentro, junto a uma das bancadas, a minha avó despejava o resto do puré de batata que sobrara do almoço de aniversário para dentro de uma taça de plástico. quando percebeu que eu estava ali, interrompeu o gesto que estava a fazer com a colher de pau, sorriu e começou a trautear uma melodia da beira alta com aquela voz característica de mulher do campo a cantar numa igreja. fiquei a olhá-la enquanto acabava a tarefa. "que foi, nunca viste?" perguntou. apeteceu-me responder que sim, uma e outra vez. vira tantas vezes aqueles mesmos gestos repetidos em tantos outros dias de aniversário e não aprendera nada com isso. fechei a porta e prossegui o caminho.

os corredores são tão intimidantes como qualquer outro espaço limitado em que parece não existirem horizontes laterais: só vemos uma extensão à nossa frente e temos a certeza de ter deixado uma extensão de dimensão variável atrás de nós mas, de um e outro lado, estamos limitados por paredes. Apetece-me colocar cada uma das minhas mãos em cada uma dessas paredes laterais e empurrá-las, obrigá-las à derrocada.

num outro quarto que abri com a mesma impulsividade, entro e vejo que é o quarto de alguém que acabou de falecer, o avô, ou mesmo o bisavô. quem quer que fosse deixou uma parte de si a desintegrar-se naquela atmosfera. sente-se que há uma presença que se vai desvanecendo lenta mas irremediavelmente. onde ficam os mortos depois de morrerem? no nosso coração?

há espelhos colocados naqueles corredores com intervalos calculados com todo o rigor. quando passo por eles, devolvem-me as mais variadas imagens de mim: uma criança, um velho decrépito, um homem maduro que resuma segurança, um adolescente, um homem que conhece o desencanto e a esperança. passo pelos vários reflexos impassível, sei que não posso mostrar qualquer tipo de nervosismo ou a ansiedade provocada, por me encontrar no corredor, vai tomar conta de mim, avassaladora.

quando finalmente saio para a rua vejo, em frente à casa, um pequeno lago e debruçada sobre ele uma árvore, cujo reflexo o lago devolve com simples perfeição. a visão é bela demais, envolvente e calmante. capturo lago, árvore e reflexo numa fotografia. é importante conservar memórias.

sábado, 31 de julho de 2010

you cannot do nothing about it


there is a fragment of you in me
there is a fragment of me in you

deep, very deep in the heart
where the environment is moist
it makes everything grow
slowly, so slowly

you didn't notice
when the seeds were planted
with ease and unconsciousness

yet, they are there
growing as a whisper

and there is nothing you can do about it

terça-feira, 20 de julho de 2010

deserto verde


deserto
deserto verde
esperança
contradição nos termos
as ruínas de tempos passados, vivos,
de viagens pelo deserto,
de mim,
dos outros,

flor do deserto,
flor solitária,
vives da pequena humidade da noite
combates a aridez dos dias
sobrevives,
mas, de facto vives,
num deserto verde,
permanente esperança,
permanente contradição.

domingo, 18 de julho de 2010

Egoista



o meu olhar penetra o teu e é assim que te leio a alma.
mas preciso lamber-te, tocar-te e cheirar a tua pele para conhecer o teu corpo,

e é do teu sabor que me alimento
e é o teu calor que me deixa vivo.

não falo de amor
não falo de paixão

falo de precisar de ti para me conhecer, para ser feliz,
para ter prazer

egoista, egoista, egoista

sexta-feira, 16 de julho de 2010

alucinação


lisboa, cidade vazia.

dois gatos pretos, entram lado a lado no teatro nacional de são carlos e com o seu andar felino, dirigem-se ao palco. o cenário é de um branco imaculado, pautado por duas estruturas transparentes: dois cubos no centro do palco. os gatos sobem para cima dos cubos e posicionam-se frente a frente, sentados sobre as patas traseiras. começam a cantar. quando terminam a função agradecem os aplausos esfuziantes de uma plateia vazia.

um louco, vestido com grande formalidade toca dulcimer na esquina da rua da misericórdia com o largo de camões. à sua frente, pousado no passeio, está um chapéu alto cheio de moedas. o louco canta e a sua ária é um pensamento sobre a alma. as pessoas que passam por ele indiferentes, subitamente encantadas pelo som, fascinadas, param e dirigem-se ao chapéu alto de onde tiram uma ou duas moedas. Em pouco tempo o chapéu fica vazio. Depois as ruas ficam vazias. O louco termina a sua ária, arruma o dulcimer no estojo, coloca o chapéu alto na cabeça, endireita o laço e começa a descer a rua do alecrim em direcção ao rio.

em alfama, a alma percorre as ruas sem destino, lamentando a sua cegueira. veste de branco: é uma noiva... veste, tecido com as teias de mil aranhas que gentilmente carregam a cauda.

nas portas do sol uma pequena orquestra executa uma melodia intimista. os músicos envergam roupas ligeiras e confortáveis. a audiência está sentada em cadeiras especialmente colocadas ali para o efeito. estão a gostar da melodia e agitam os pescoços para a esquerda e para a direita ao sabor da música. no fim da actuação, os músicos agradecem e as pombas dão ao bico aplaudindo intensamente após o que levantam voo numa debandada geral.

no convento do carmo uma gárgula chora, lamentando os anos que tem estado aprisionada. chora pequenos seixos que caem no passeio e vão rolando rua abaixo...

de súbito todos os sinos de lisboa começam a tocar ao mesmo tempo. A música parece fazer eco nas ruas da cidade. há uma certa ansiedade trágica. os cães escondem-se, nos ramos das árvores os pássaros calam-se e as estátuas da cidade, animadas, movem-se na direcção do som.

a alma dorme no rossio. um pianista de fraque toca uma melodia que a faz sonhar. subitamente este deixa o piano e penetra o sonho da alma... toma posse do sonho, agita a alma, prende-a com as notas da melodia. a alma sorri. o pianista desaparece no sonho e o piano fica esquecido na praça.

junto à estação dos restauradores um jovem faz bolas de sabão. as bolas ao subirem, no seu percurso, envolvem e levantam para o ar tudo aquilo em que tocam. uma levantou um banco da rua, outra um automóvel que estava estacionado na berma, outra levantou um homem. tudo vai subindo em direcção ao céu, dentro das bolas de sabão.

no cais do sodré um grupo de donzelas com vestidos primaveris e coroas de flores na cabeça executam uma coreografia em honra do “senhor”. a rainha das flores canta uma melodia harmoniosa. o “senhor” torce o nariz, o seu olhar perde-se no horizonte do rio pontuado por embarcações que vogam ao deus dará. o “senhor” faz um gesto e as donzelas evaporam-se, uma a uma, no tempo que passa. a última a desaparecer é a rainha das flores que ainda tem tempo para terminar a canção.

na sé, o orgão toca. não existe ninguém para ouvir o concerto. junto ao orgão nota-se uma distorção temporal com a vaga forma de pessoa, mas é tão insubstancial que a realidade passa apenas pelo teclado que transpira com frenesim e por uma ligeira depressão no banco do organista. o som choca com as paredes nuas da sé, com os túmulos abandonados nas capelas da rotunda, antes de convergir num ponto central da catedral e, formando jactos iluminados, sair pela porta e espalhar-se sobre a cidade, num fogo de artifício diurno.

uma perspectiva aérea. a câmara foca a av. da liberdade até ao marquês de pombal e depois o parque eduardo VII, no topo do qual a alma canta com o optimismo da inconsciência. braços abertos, gestos largos, cheios de movimento e fluidez, marcada pelas grandes opas que cobrem os seus braços. a ária irradia luz e calor... a oriente surgem as primeiras nuvens...