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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

....



Se com os ângulos do teu rosto
vieres perturbar a liquidez do meu quotidiano
sê avisado
sobre o risco da paixão
que oferece
a neblina
definida pelas linhas dos corpo em reflexo
limitada pelo encontro das nuvens de palavras sem significado
ficaremos sempre presos no limbo, cristalizados
é provável que tudo acabe em estilhaços

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

comunhão

e quando te sentisses assim
sem substância
como se tudo te atravessasse sem deixar traço, marca ou memória.

na tua fluídez irias perguntar se, de facto, existias,
porquê esse vazio.
metias a mão lá dentro, em ti e achavas muito pouco,

um quase nada,
um sopro que subsiste da vontade
ser novamente em comunhão.


segunda-feira, 24 de junho de 2013

beijo


beijo a tua boca devagar
os teus lábios macios
que provo como à polpa de um fruto fresco

prendo entre os meus dentes
os teus lábios
um pouco dessa carne quente e húmida
a tua língua

sinto a textura
mas perco-me no que sinto
porque num beijo posso deixar de existir

segunda-feira, 22 de abril de 2013

regressar



no cimo da montanha está o mesmo sol,
mas o sonho desfez-se nas águas do rio.
calmo, brilhante e fresco, ele desliza pelo leito
de areia e lage polidas
como um corpo à mercê de mãos que o vão moldando com carícias


não vale a pena dizer que lamento todas as lágrimas.
elas tinham de ser choradas, secar na tua pele,
temperá-la com o sal da tristeza.
no fim são sempre lágrimas e tristeza por companhia

e as estações passam e partimos ambos.
por vezes regressamos a partes de nós, aqui
(mas nunca é a mesma coisa).
apenas ficaram sombras.
regressamos

segunda-feira, 15 de abril de 2013

decisão






já não vou revelar os meus segredos
os teus pés caminham sobre gelo frio
eu sou objecto vazio à espera de novo uso
quando adivinhaste?

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Raiva


toda a raiva é branca
toda a noite pensei que a raiva é branca
um manto glauco que se abate e consome
o arco-íris de cor de que sou feito


e o corpo explode de frustração
porque a consciência impede
que a mesma se perca
e a ignorância se instale

pudesse eu vazar todo o entulho de que estou cheio
e para tanto ver na escuridão

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

fusão




e quando estivesse farto de tudo retirava-me para as tuas mãos
ou para detrás dos teus olhos, refugiava-me no teu sorriso

e quando olhasses, já estaria tão entranhado em ti
que nem ias perceber onde terminava eu e começavas tu

iriamos falar ao mesmo tempo,
dizendo as mesmas palavras,
respirar num só ar e espelhar os gestos

seria mágico passear na avenida e fazer a luz dos candeeiros apagar

terça-feira, 27 de novembro de 2012

caminho





estava numa encruzilhada sem saber
que caminho seguir

e já não bastava recordar o teu sorriso
nem o teu amor, ainda que

devesse ser suficiente.

às vezes penso em ti e faço aquelas associações ridículas
que os poetas fazem.

eles dizem:

os lábios são ave que liberta as asas ao sorrir
os olhos berlindes, cheios das tonalidades do verde e do castanho

e fazem-me sonhar.

o corpo é carícia e o abraço calor

devia ser suficiente recordar tudo isso e o mais
que se passou junto ao mar
para me fazer seguir o caminho.

perdido? não!

mas era muito bom ter a tua companhia.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

vamos falar


Fotografia de Pedro Sayanda


vamos falar um pouco mais, como se assim nos conhecessemos melhor e não fossem apenas as palavras involuntárias, de partes do teu corpo, que pretendo ler e ouvir.

com toda a atenção leio, ouço e assim te conheço.

interpreto a pontuação das tuas mãos, a respiração dos teus olhos, a frequente pausa quando te imobilizas. um ponto final revelado por um braço que pousa no colo, um travessão no movimento do teu peito, antes de se dar início ao diálogo. uma exclamação no teu olhar, uma interrogação nos teus lábios.

é belo o som de um corpo e é belo o seu silêncio.

não sei se são as palavras, o teu corpo ou a tua inteligência. acabo por me apropriar de tudo sem ter nada...

no fundo é só uma imagem ou, nem isso, uma imagem de uma imagem reflectida pelo espelho do meu desejo.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

campo de flores

Fotografia de Sayanda Photography (Pedro Sayanda)


um dia vamos deitar-nos num campo de flores e olhar o céu.
daremos as mãos e seremos como duas metades de uma maçã.
e não será preciso que o olhar se encontre.
seremos um só
enquanto as flores libertam o seu perfume

terça-feira, 25 de setembro de 2012

arrefecidos



no outono
o ar arrefeceu,
as cores arrefeceram,
tu e eu,
no Outono,
colhemos os últimos frutos,
aprendemos as palavras finais.
no outono
o mar está mais frio,
o vento ameaça,
abraço-me,
protejo-me.
no outono,
de ti levo as folhas que foram ardendo no Verão,
vão caíndo pelo caminho ao sabor dos dias.
há novos silêncios.
no outono
tu e eu
arrefecidos

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

um / dois

a fatal ilusão de crer que somos um
quando dois é a verdade que somos
e experimentar essa certeza
no susto do pensamento adivinhado

segunda-feira, 4 de junho de 2012

vencedores




não vou deixar-te escorrer por mim como água
não vou sentir a tua voz como dor
nem o teu sentimento como agressão
na procura dos corpos o infinito prende-nos
na procura dos espíritos desfazem-se trevas
e num momento é a eternidade

uivam os cães, abate-se a tempestade
mas juntos fazemos a cama e entrelaçamos a esperança
juntos a nossa solidão é mais poderosa
e no beijo dois regatos unem-se
e correm para a foz.
o teu sorriso e o teu olhar detêm-me
as tuas mãos libertam
e depois da pretensa morte
um ressuscitar com brilho de madrugada
e depois de um sono sem sonhos
habitado pelos ultimos heróis
somos vencedores do amor em mais uma história

sábado, 2 de junho de 2012

permanecer


nunca sonhei assim


com tanta calma e paixão
com tanta cor, emoção
sem consciência do fim

um sonho, colorido por nós.
Cores intensas e cruas,
diluídas em palavras quentes
ocupando a tela, a vida, de lés a lés

como se não houvesse outro fim
como se só plenitude: tu e eu

dizem que nada perdura, nada é eterno, tudo se esvai...
queria
não acordar, permanecer

terça-feira, 15 de maio de 2012

castelo

o castelo caiu, pouco resta. estás satisfeito, feliz? aplacaste os teus fantasmas, realizaste os teus sonhos? e o amor? que faço com o meu? aqui sentado, neste horizonte, mar de gente, tudo é deserto,
com tristeza

quinta-feira, 10 de maio de 2012

breve

desde que estás comigo, nunca mais me senti só!

plenitude

em todas as vozes, procuras a Voz. em todas as pinturas, a vibração da Cor. em todos os relatos, a História perfeita. em todos os sons a Música das esferas e em todos os outros, o outro que te completa e perguntas se existe uma Alma, se ela pode ser definida. diz-me! o que vibra em ti quando encontras? é uma sensação física, que te assusta, e arrasa poder pensar todo o mundo: natural e construído, poder pensar-te a ti, com a simpliciade do ser, estar, existir, com a simplicidade do momento sem mais, uma pelnitude que é

quarta-feira, 21 de março de 2012

poesia dura


a tua poesia é dura.
quando toca a minha pele,
a tua poesia deixa a marca das palavras roxas.
essas palavras são algozes de pensamentos,
em pequenas sílabas cristalizam um mundo.

a tua poesia é dura como nódoas negras
e nem por isso gosto menos dela.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

encantamento


deixa-me dissipar a nuvem
que cobre o lago.

ao luar, eu, sacerdote,
num gesto largo, percorro o céu,
lanço ao ar, na ponta do objecto afiado, um encantamento,
que como pó de estrelas cai sobre as águas quietas.

os meus pés mergulhados e o teu corpo submerso... o teu corpo...

queria ressuscitar a tua vida:
ao corpo dar a voz
à voz imprimir o gesto,
com o gesto rasgar o olhar
e no olhar conjurar a alma.

vivesses de novo tu para mim,
morreria eu por, de novo, não saber amar-te.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

ou


priveligiamos a amizade
e sobre ela o amor
e sobretudo a paixão

ou não?!