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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

da sensualidade da música barroca

há uma qualidade na música barroca em geral e em Handel em particular que me delicia: a sensualidade.
é uma sensualidade feita de contenção e de grande intensidade, que penetra os poros de quem tem os canais abertos e se liga directamente aos controlos do prazer que se encontram no cérebro.
no barroco conta a atitude e a convenção. na música essa atitude é impregnada de intensidade que se revela na voz e nos apanha desprevenidos: é como um gesto, um olhar, uma meia palavra, uma carícia, tantas vezes apenas sugerida, adivinhada e que é expressa por pequenas modulações da voz e por uma melodia penetrante. o efeito é hipnotizante e por isso, é fácil, esquecer tudo e partir pelo sonho em direcção ao intangível.
ascender, transcender, fazer parte de algo mais vasto e superior, é possível também com a música barroca.
Bach é espiritual, Vivaldi apaixonado. Handel é sensual.

sábado, 31 de julho de 2010

Handel - Apócrifos

não foi a sua voz que o prendeu.
primeiro ouviu-a e depois foi-lhe apresentado num serão em casa dum desses nobres de que já nem o nome recordava. la bombace, disseram.

vitória deu-lhe o braço e arrastou-o para o jardim. ele contou-lhe o principal da sua vida e ela sorria e trauteava uma canção napolitana...

ela brincou com os seus dedos e ele corou. beijou-a por impulso. talvez o primeiro e último impulso para um beijo na sua longa vida. gostara de a beijar e gostara do seu riso fresco de soprano. iria compor uma ária para ela, uma ópera...

nos seus encontros intermitentes ele amou-a como se fosse a sua última oportunidade e fixou cada detalhe do seu corpo para que as memórias fossem mais vivas, mais exactas.

houve paixão, mas não ouve amor e isso é triste.

muitos anos depois ainda ia buscar inspiração para as suas árias de amor em vittoria tarquini,

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Do Amor

gosto particularmente desta ária, originalmente da ópera Giulio Cesar - V'adoro Pupille.

v'adoro, pupille, saette d'amore,
le vostre faville son grate nel sen.
pietose vi brama il mesto mio core,
ch'ogn'ora vi chiama l'amato suo ben

quando procurava no you tube, encontrei esta versão com kiri te kanawa.
tenho lido sobre a dificuldade que é recuperar as obras do século XVIII, por forma a torná-las mais atractivas para os espectadores das grandes salas de ópera. cheguei à conclusão que na maioria das vezes há lugar para transposições arrojadas, algumas raiando o rídiculo, mas esta parece-me uma excepção. aparentemente trata-se de uma colagem de árias de handel numa produção chamada "the sorceress"

é uma versão que me parece muito interessante, quer do ponto de vista visual, quer da interpretação. prendeu-me exactamente o retrato do sentimento amoroso que passa na voz e na interpretação de kiri.

na ópera, é cleopatra que tenta seduzir júlio césar - no you tube pode encontrar-se uma versão áudio da ária por emma kirkby que, para mim, canta a composição exemplarmente -, mas nesta versão, a suposta feiticeira já está completamente apaixonada, sendo seduzida por ele e deixando-nos a sensação de que o sentimento do personagem masculino é distante, quase insensível.

muitas vezes debato comigo mesmo se a paixão/amor não é, em primeiro lugar e principalmente, apaixonarmo-nos pelo outro num exercício solitário, independentemente de tudo e de todos, contra tudo e contra todos, não interessando se somos ou não correspondidos.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Handel...mania

Ainda que não me fosse desconhecido, de facto, só desde os últimos seis meses venho explorando o mundo de Handel, principalmente as Óperas.
Deixo-me arrastar para um outro mundo onde a música e a voz tantas vezes se fundem e me arrastam para uma outra dimensão que por sua vez permeia o real e lhe empresta outros tons.

Existe um trio quase definitivo: bach, handel, vivaldi...

De facto, para a minha sensibilidade handel está no meio e reune perfeitamente as qualidades que apelam ao meu ouvido - quantas árias são, parecem, outras tantas canções que, se actualizadas, poderiam andar por aí a voar... Ainda bem que não andam!

Amado ou incompreendido...

O que interessa é o tempo de prazer que me proporciona - isso sim, é importante.

Devia ser um homem especial, devia ser um homem objectivo - só assim consigo compreender a sua produção musical, a rapidez e, no entanto, quanta beleza e sensibilidade e exaltação.