quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
sob cerco
http://youtu.be/TFgMeUExZBg
Um acontecimento principal concorre para este texto: o facto do ministro Miguel Relvas ter sido impedido de falar num evento público no ISCTE.
Vi uma reportagem televisiva sobre o que aconteceu. Mostrava a veemência dos manifestantes que impediram o ministro de falar e a forma como acabou por ser retirado das instalações da Universidade, sob protecção musculada e debaixo de um coro de protestos e enxovalhos. Comentei no facebook o vídeo e escrevi a primeira ideia que me surgiu: já ninguém quer ouvir o que têm para dizer.
Com efeito, creio que um segmento significativo da sociedade portuguesa já não acredita, nem tem paciência para o que este governo e os seus representantes exprimem, certos de que a seguir vão sofrer na pele as medidas draconianas que, sob a justificação da situação do país, acabam por ser impostas.
Acredito no princípio da legitimidade democrática de um governo que resulta de eleições livres. Eleições a que os partidos submetem um programa que é sufragado pelo povo. Acredito que pelo período instituído esse governo deve promover as suas políticas no respeito das “promessas” ou intenções submetidas ao escrutínio dos cidadãos. Assim, acredito na liberdade de expressão de todos e assim, também, acredito que ao ministro devia ter sido dada oportunidade de falar.
A questão é que este governo de uma forma mais ostensiva que os anteriores, não tem cumprido as suas promessas e tem, das mais variadas formas, concorrido para um empobrecimento generalizado do país, das famílias, para um aumento do desemprego, da insatisfação, da injustiça social e do sentimento de “fim de linha”. Este governo parece estar a ir muito além das propostas que submeteu a sufrágio e por isso coloco-me a questão da permanência, hoje, da sua legitimidade governativa. Existindo uma questão de forma e de conteúdo, diria que se formalmente está legitimado, quanto ao conteúdo perdeu a legitimidade.
Na TSF o Professor José Gil comentava, esta manhã, o episódio do ISCTE, alertando para o perigo destes pequenos movimentos que brotam de forma mais ou menos organizada e que catalisam os sentimentos das massas. Alertou para o facto de serem sintomas da inquietação que a sociedade Portuguesa vive. A ideia que me ficou impressa foi a de um governo, em particular, e de uma classe política, em geral, “sob cerco”.
No Parlamento, de tarde, o líder da bancada parlamentar do PSD repudiou os acontecimentos. O Parlamento não foi unânime em condenar o sucedido, a oposição tentou tirar dividendos e não foi debatida a questão de fundo.
Ao início da noite, no programa Pares da República da TSF, Maria de Lurdes Rodrigues, ex-ministra da Educação da era Sócrates, lamentava o sucedido, referia que se trata de situações que não devem, não podem acontecer e que exigem medidas preventivas. Não esclareceu que tipo de medidas…
O exercício do contraditório e a liberdade de expressão são essenciais na vida democrática, contudo as acções de protesto e repúdio também são. Os políticos têm vários fóruns onde podem expor livremente as suas ideias, por exemplo, o Parlamento, onde qualquer cidadão que esteja a assistir não pode manifestar-se ou será retirado das bancadas. Foi o que aconteceu às pessoas que cantaram Grândola Vila Morena e assim, interromperam o Primeiro ministro.
Os governos e os políticos devem servir o Povo. Existe um contracto assinado no dia das eleições entre governantes e governados que deve ser honrado. Quando esse contracto não é honrado, há falta de respeito. Quando há falta de respeito começam a surgir sinais de que o poder está “sob cerco”.
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
fumos de revolta
a sensação de que não vamos a lado nenhum é cada vez maior.
no espaço de 5 dias, os portugueses foram infomados sobre a proposta de novas medidas de austeridade, as quais conseguiram o efeito de suscitar a crítica negativa e a oposição de personalidades de todos os quadrantes do espectro político em Portugal.
registo este facto porque é sinal de que ainda há quem tenha a decência de pensar pela própria cabeça e não estar sob o jugo do interesse partidário.
as novas medidas constituem uma violência que afecta sobretudo os mais desfavorecidos e a classe média. a lógica é simples: ir directamente ao bolso dos trabalhadores por conta de outrém, de forma rápida e limpa. É mais fácil obter receitas desta forma do que repensar o estado e olhar às suas ineficiências e gorduras.
O aumento da taxa para a segurança social de 11% para 18% constitui uma violência sem precedentes sobre os trabalhadores, sob todos os pontos de vista e sobretudo quando, em paralelo, assistimos à redução das prestações sociais e aos cortes em áreas como a Saúde e a Educação.
relativamente às empresas, a redução da TSU suscitou opiniões convergentes: só marginalmente poderá contribuir para a manutenção do emprego, pelo que continuaremos a assistir ao aumento do desemprego, numa conjuntura em que a maioria das empresas estão cautelosas com reduzido acesso ao crédito bancário.
ao anúncio feito pelo primeiro ministro, somamos agora as medidas propostas pelo ministro das finanças que redundam em mais aumento de impostos.
estamos a ser esmifrados num torno accionado pela tróika e pelo governo. sem perspectivas de que os sacrifícios pedidos resultem a médio ou a longo prazo numa melhoria das condições de vida das pessoas.
o governo não enfrenta os lobbys, os interesses, a banca, as grandes empresas e os grupos ecnómicos.
o governo não tem a mínima noção do impacto das suas medidas no cidadão comum. não me refiro apenas ao impecto no rendimento disponível, mas ao impacto psicológico. a desmotivação, a sensação de injustiça e a revolta social nascem quando as pessoas interiorizam que estão a ser governadas por políticos que arrumaram a ética na gaveta.
a crise que era económica, mostra sinais de rapidamente se poder tornar numa crise social grave. Os sinais estão à vista, com esta tendência para a convergência numa frente comum de vários sectores e sensibilidades da sociedade portuguesa. No horizonte, fumos de revolta.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
alternativa? emigrar!
o primeiro ministro de Portugal aconselhou os professores desempregados a emigrar. esta parece ser uma das soluções possíveis para os professores desempregados e, pelo menos, é uma das primeiras soluções a ser avançada para ajudar a resolver o problema destes profissionais. trata-se da segunda vez que, detentores de cargos públicos de elevada responsabilidade neste governo, sugerem a emigração como meio de resolver a questão do desemprego.
no mínimo, parece-me estranho e pouco ético que, um primeiro ministro democraticamente eleito para arcar com a responsabilidade de, entre outros, ajudar a resolver o problema do desemprego, aconselhe a emigração os seus concidadãos. esta forma de concorrer para a resolução do problema parece-me má.
no entanto, não deveria ficar surpreendido. a sugestão é representativa da situação política a que chegámos com, pelo menos, 30 anos de má governação, em que, no fundo, todos estamos implicados, co-responsáveis que somos pela eleição democrática de partidos cujas prioridades, discutíveis e decisões negligentes redundaram, volta e meia, em sacrifícios pedidos aos cidadãos. não são os sacrifícios que me motivam uma visão negativa mas sim, continuarmos sem uma linha de rumo, uma prioridade estratégica, uma aposta a médio e a longo prazo que constitua fonte de esperança e de sentido para Portugal.
assim, com sugestões destas, verifica-se facilmente que continuamos um povo “merceeiro” que na riqueza e na pobreza continua a pensar no presente e...” quem cá ficar que o ganhe!”... as várias ondas de emigração por que Portugal passou, nomeadamente nos anos 60 e 70 do século XX, com vários custos sociais, culturais e familiares foram esquecidas. temos fraca memória!
de que vale apelar à unidade nacional, à defesa de valores nacionais, à solidariedade, ao espírito de sacríficio, ao orgulho, quando a resposta que se dá é: estão a mais, não temos trabalho para vós, vão-se embora, desenrrasquem-se.
estou farto das caras compungidas a falar do esforço nacional necessário, de imperativo nacional, de sacrifícios para todos, de justiça social, etc. acho nojento falar do princípio do utilizador pagador aplicado às portagens das ex-SCUT e ao acesso à saúde. estou farto do desnorte, da falta de rumo, da ausência de solução, da demagogia, do engano, da falsa esperança, das palavras. vivemos tempos em que cada vez mais sob um manto diáfano de fantasia se vai construindo uma realidade em que a nudez forte da verdade se traduz em massificação e insensibilidade social. há um novo tipo de escravatura do cidadão comum, que de maneira já não branda e insidiosa se vai instituindo e parece ser branqueada por todos nós quando, nas urnas, exercemos o nosso direito de voto.
e que alternativa temos? emigrar!
se não fizesse um esforço diário para pensar que os governantes e os governos têm como principal objectivo a promoção do bem comum dos seus concidadãos, diria que eramos finalmente chegados ao deboche e à pornografia na política, no sentido em que tudo é permitido, exibido e dito, sem pudor e consideração pelo cidadão anónimo. tudo parece ser uma mentira. e não há vergonha!
nestes dias que correm, apenas o dinheiro liberta! salve-se quem puder!
quarta-feira, 9 de março de 2011
um dia para a história
um dia assinalado pela tomada de posse do sr. presidente da república. um dia marcado pelo discurso de 40 minutos do sr. presidente da república em que o mesmo fez, uma vez mais, o diagnóstico da situação, prometeu uma magistratura activa, de cooperação institucional e em que não fez qualquer referência à Europa.
sábado, 22 de janeiro de 2011
eleições
um dia de reflexão para quê? um dia de reflexão para ponderarmos em qual dos candidatos presidenciais vamos votar.
um dia que não interessa para nada!
antecipa-se que a taxa de abstenção será das maiores de sempre em eleições presidenciais. cavaco silva garante a sua eleição sem problemas, certamente à primeira volta. nas circunstâncias que vivemos, não há como contrariar o facto - à partida, a reeleição do presidente em exercício está garantida.
contudo, o desinteresse por esta eleição bateu todos os recordes. por mim falo.
votar neste ou no outro candidato não fará qualquer diferença. não terá impacto na vida do país. Portugal não será nem melhor nem pior com cavaco ou com alegre, com a direita ou com a esquerda. estamos presos aos constrangimentos de uma situação interna decadente e sem horizontes e a uma situação externa que nos penaliza com a insensibilidade da linguagem económico/financeira.
o sistema político português está descredibilizado, foi apodrecendo às mãos de gerações políticas, sucessivas, de carreiristas que se preocuparam em gerir o presente e o curto prazo, a bem dos seus interesses e dos interesses dos seus partidos.
o problema em Portugal foi, é e será sempre a falta de educação: do povo e das elites que nos governam. os primeiros não têm consciência da sua necessidade pelo que nem a educação dos filhos promovem; aos segundos não interessa a educação das massas e nisso revelam a sua baixa formação.
ainda assim, amanhã, devemos votar.
quarta-feira, 2 de junho de 2010
500 Escolas
a justificação é que turmas com menos de 20 alunos obtêm pior aproveitamento escolar.
na minha opinião, por trás da desculpa esconde-se uma questão exclusivamente económica: são menos professores, são menos instalações para manter, etc.
o resultado certo desta medida é mais um contributo directo para a desertificação do país. estas escolas não vão fechar em lisboa, porto ou na amadora, vão fechar em trás os montes, nas beiras, no alto douro, no alentejo e no algarve. no interior.
numa perspectiva optimista, podemos sempre esperar um futuro, a breve trecho, em que para além das praias do algarve e de pouco mais, podemos oferecer ao turista moderno, um pacote telúrico, com passeios guiados por um portugal deserto e arruinado. ficarão as ruínas, pois a marca do homem é sempre mais demorada a apagar.
mas estas questões não interessam a ninguém... talvez apenas interessem aos directamente interessados: às crianças que em maior ou menor grau são desenraizadas do seu meio e aos pais das crianças que vão ter de se acomodar. Mas estas pessoas não contam para nada...
vi a ministra da educação a justificar a medida na televisão e fiquem constrangido. a ministra, a quem não nego interesse e preocupação pelas crianças e pelos jovens, parecia constrangida, justificando o que parece não ter justificação. pareceu-me que a ministra não acreditava nas explicações que verbalizava. foi a minha leitura. devo estar a ler demais no rosto dos outros.
é um país triste, onde os pensamentos são tristes, as acções tristes e em que a esperança está totalmente desesperada!
Proposta de audição: ária "verdi prati, selve amene" da ópera de Handel Alcina
segunda-feira, 17 de maio de 2010
Igualdade
hoje o presidente da republica comunicou ao país que não vai vetar a lei do casamento homossexual. participou que não vai vetar o que não é o mesmo que comunicar que aprova. porque de facto não aprova. está no seu direito.
se vivemos segundo princípios e se o princípio da igualdade é um desses que nos enche a boca, então a igualdade tanto se aplica a um casal hetero como homossexual.
não sei se é sinal de avanço civilizacional, mas inclino-me a crer que sim. no início do século 20 as mulheres não votavam e hoje continuam a construir a igualdade com os homens.
é contra a designação de casamento aplicado a um contrato entre duas pessoas do mesmo sexo que muitos se opõem... trata-se apenas de uma palavra que exprime um conceito que, como tudo na vida, está sujeito a evoluir.
o amor e a paixão não precisam do casamento para se realizar, mas o casamento precisa, de facto, de amor e paixão para ter significado.
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Agir
Mais uma semana de economia, "rating", Grécia, Portugal, PEC, bolsa a cair,obras públicas,...
Questiono-me sobre o sentido de tudo isto - para onde vamos todos, escravos da economia, do capitalismo selvagem, da especulação.
Onde vamos encontrar a esperança de que precisamos para seguir com as nossas vidas, iludidos por um futuro de sucesso, por uma perspectiva optimista para os nossos filhos, uma perspectiva cada vez mais incerta.
E, no entanto, prosseguimos, um passo, outro passo e prosseguimos esgotando os nossos dias, tentando arranjar um sentido cada vez mais difícil de encontrar.
Olho a televisão e ouço os políticos: - É a hora de agir! - exclamam. Agir como, ao abrigo de que ética - um valor tão arredado da política.
Começamos a não acreditar nas boas intenções. Começamos a não acreditar e a procurar soluções... Será assim que nascem as revoluções?
Proposta de audição: - "Dopo notte, atra e funesta" (Anne sophie von Otter) - Handel - Ariodante