quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

da sensualidade da música barroca

há uma qualidade na música barroca em geral e em Handel em particular que me delicia: a sensualidade.
é uma sensualidade feita de contenção e de grande intensidade, que penetra os poros de quem tem os canais abertos e se liga directamente aos controlos do prazer que se encontram no cérebro.
no barroco conta a atitude e a convenção. na música essa atitude é impregnada de intensidade que se revela na voz e nos apanha desprevenidos: é como um gesto, um olhar, uma meia palavra, uma carícia, tantas vezes apenas sugerida, adivinhada e que é expressa por pequenas modulações da voz e por uma melodia penetrante. o efeito é hipnotizante e por isso, é fácil, esquecer tudo e partir pelo sonho em direcção ao intangível.
ascender, transcender, fazer parte de algo mais vasto e superior, é possível também com a música barroca.
Bach é espiritual, Vivaldi apaixonado. Handel é sensual.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

paixão


os minutos e horas e dias que estamos juntos,
todas as palavras e palavras, sorrisos, gestos e sorrisos,
toda a descoberta, toda a surpresa,
os pensamentos, o som da tua voz que não ouço,
as cores e cores que adivinho,
todos os silêncios e ausências sentidos,
tudo, tudo alimenta um sentimento
e tem um nome.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

luz


hoje ofereceste-me a lua e eu quis dar-te o sol.
adiante pensei melhor, devolvi-te metade - o lado brilhante!
eu fiquei na sombra, onde não há ruído, onde posso dizer-te palavras ao ouvido,
que te fazem sorrir.
luz!

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

quando saíres

quando saíres,
não te esqueças da roupa tão desnecessária,
não perturbes o meu sono com o teu olhar intenso,
não passes a tua mão esquecida pela nudez do meu cabelo,
não deixes um bilhete que eu não queira ler.
que não me acorde o silêncio dos teus passos.

para o João e o Ricardo

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

hécuba

cruzo os intervalos da chuva para ver.

na praia, sózinha,
ali está a cadela que uiva às ondas,
correndo pelo areal,
sem fado e sem futuro,

os seus lamentos,
por tudo o que perdeu,
casa, filhos, esperanças,
pensamentos,

na metamorfose possível,
oiço o grito que me inspira,
atiro-me às vagas,
para conseguir o esquecimento.

depois olho-me vazio,
a cadela e o mar,

com prazer, a chuva leva-me,
lágrima

domingo, 19 de dezembro de 2010

desassossego

sentia-me assim.
terminei um livro e fui escolher outro.
peguei no livro do desassossego e comecei a ler.
algumas páginas depois de ter começado, percebi:
sentia-me desassossegado.
eu escolhi o livro ou o livro escolheu-me?!
só depois de começar a ler coloquei um nome no que sentia.

mais à frente li:

"Que desassossego se sinto, que desconforto se penso, que inutilidade se quero!"
Fernando Pessoa disse

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010


há que saber quando é melhor estar calado e ouvir
quando é melhor o silêncio.
superior ao grito, ao murmúrio, ao sussurro, ao choro e ao lamento

há que saber quando o olhar tem um significado definitivo
quando diz o que a boca não quer
e trai
quando olha e recusa ver

há que saber a linguagem da mão dada livremente
primeiro passo, primeiro palavra, primeiro sinal

Há que saber que o cheiro também sabe
E se sabe bem é porque cheira

Há que saber o segredo dos sentidos