terça-feira, 23 de novembro de 2010

Puzzle


Amarrota a alma e o corpo
Intenso odor do pinhal
Cheiro a terra verde
Entra pelo mar
Ístmo estreito e delgado

domingo, 31 de outubro de 2010

A jusante


mergulha o olhar na transparência da água,
flutua
deixa-te possuir pela carícia fluída.

ir em direcção ao mar, a jusante do ser,
onde já não há realidade,
possibilidade talvez?
certeza nenhuma!

vão esforço, prescrutar o futuro...
onde só existe ser e passado.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O Labirinto das Trevas


para quem leu “O Quarteto de Alexandria” e se deixou conquistar por uma história que é sucessivamente recontada, recriada, relembrada e reinventada a 4 vozes, em outras tantas novelas, a saber, Justine, Baltasar, Mountolive e Clea, para essa pessoa, a leitura de “O Labirinto das Trevas” pode deixar sabor a muito pouco.

após anular conscientemente esse efeito habitual, em que uma obra se estabelece como referência, com a qual todas as outras obras do autor são comparadas, “O Labirinto das Trevas” pode surgir como uma obra curiosa, uma pequena pérola com um sabor a fim de guerra, fim de época, que nos leva a reflectir sobre a nossa própria época e renova as questões essenciais sobre o propósito e o alcance da nossa vida individual e colectiva.

o labirinto é um símbolo arquetípico muito forte que remete para a procura iniciática em direcção à luz e ao renascimento, após um percurso cheio de escolhos e trevas. alguns alcançam o centro, outros alcançam a saída, outros ficam pelo caminho, perdidos nas opções que fizeram, certas ou erradas, perdidos na recusa de enfrentar esse caminho em direcção à iluminação.

neste livro, Lawrence Durrell faz-nos acompanhar o percurso de algumas personagens, cada uma com a sua história, que durante uma visita a um labirinto em Creta sofrem as consequências de uma derrocada e ficam aprisionadas no seu interior. assim, aquilo que não passava de uma visita turística ao labirinto (comparável aqueles momentos em que fazemos um esforço por enfrentar as nossas questões essenciais, esforço que abandonamos, tantas vezes, pela dificuldade de enfrentar/aceitar a nossa realidade) transforma-se numa procura de respostas para aquela situação extrema.

alguns não conseguem por incapacidade ou recusa, outros fazem-no com muita dificuldade e custos pessoais, outros alcançam, por sorte, a saída ou atingem o centro oculto do labirinto, ou seja, um conhecimento de si próprios que oferece alguma dimensão de resposta e de paz.

neste livro além da elegância da escrita de Lawrence Durrell há a sensação de quem trata de coisas sérias com um enganadora ligeireza. após ler O Labirinto das Trevas, fica a pergunta sobre se atingimos o cerne da questão e fica a certeza de que não é preciso entrar num labirinto real para reconhecer as fronteiras do nosso prórpio labirinto interior e a sua porta de entrada.

"O Labirinto das Trevas"
Autor: Lawrence Durrell
Tradução: Miguel Serras Pereira
Edição: Ulisseia
uma chancela Babel

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Memórias de Adriano


a pergunta é: quantas vezes irei, ainda, reler este livro? a pergunta é: se o voltar a ler, o que me trará de novo, que nova riqueza me deixará no colo?

cada livro fala de acordo com a idade, a experiência e a envergadura cultural do indivíduo que o lê. eu li Memórias de Adriano pela primeira vez, teria 22 anos e lembro ter fixado imagens, pedaços de texto que, na altura, foram significativos.

agora ao reler, foi com dificuldade que encontrei essas passagens, foi com alguma surpresa que outras se fixaram e me estimularam. lembro muito bem uma frase, "Não me lembro de outro dia mais ardente, nem de noites mais lúcidas", lembro que esta frase andou comigo até, eventualmente, a minha memória deixar de conseguir reconstrui-la correctamente. foi-me difícil achá-la nesta leitura, quase não dava por ela. o que este livro significou para mim aos 22 anos, encontra um pálido eco no caminho dos 50.

esta opção de reler, uma opção consciente de quem percebe que o tempo é, de facto, o principal dos recursos escassos, por outro lado, abre novas perspectivas, novas interpretações e obriga a novos raciocínios e reflexões.

não é o quão bem escrito está, não é tratar-se de uma biografia romanceada muito bem escrita. é tudo isso e o feliz sucesso de abordar a humanidade do ser humano naquilo que tem de heróico e trágico, excepcional, mesquinho e transcendente. é a minha explicação para o mistério desta obra.

é difícil não enfrentarmos as nossas questões existenciais, é difícil recusar um julgamento, um exercício de autocrítica ao fundamental da nossa vida, às nossas opções, aos nossos sucessos e às nossas perdas.

este livro tem a particularidade de funcionar como um espelho onde, é forçoso! nos revemos involuntariamente.

cada homem tenta ser rei e senhor da sua vida e um dia exerce um julgamente sobre si mesmo... e mais tarde chega à conclusão de que esse julgamento não tem, nem nunca teve importância. É o tempo, é a vida definida por um gráfico "de três linhas sinuosas, prolongadas no infinito, incessantemente aproximadas e divergindo sem cessar: o que o homem julgou ser, o que ele quis ser e o que ele foi". mas essa consciência da inutilidade objectiva do julgamento não desculpa a ausência de uma ética de conduta, de uma filosofia de vida.

um dia talvez volte a reler este livro e, tenho a certeza, vou descobrir mais.

Memórias de Adriano
seguido de
apontamentos sobre as Memórias de Adriano
Autor: Marguerite Yourcenar
Tradução: Maria Lamas
Edição: Ulisseia,
uma chancela Babel

sábado, 31 de julho de 2010

Handel - Apócrifos

não foi a sua voz que o prendeu.
primeiro ouviu-a e depois foi-lhe apresentado num serão em casa dum desses nobres de que já nem o nome recordava. la bombace, disseram.

vitória deu-lhe o braço e arrastou-o para o jardim. ele contou-lhe o principal da sua vida e ela sorria e trauteava uma canção napolitana...

ela brincou com os seus dedos e ele corou. beijou-a por impulso. talvez o primeiro e último impulso para um beijo na sua longa vida. gostara de a beijar e gostara do seu riso fresco de soprano. iria compor uma ária para ela, uma ópera...

nos seus encontros intermitentes ele amou-a como se fosse a sua última oportunidade e fixou cada detalhe do seu corpo para que as memórias fossem mais vivas, mais exactas.

houve paixão, mas não ouve amor e isso é triste.

muitos anos depois ainda ia buscar inspiração para as suas árias de amor em vittoria tarquini,

you cannot do nothing about it


there is a fragment of you in me
there is a fragment of me in you

deep, very deep in the heart
where the environment is moist
it makes everything grow
slowly, so slowly

you didn't notice
when the seeds were planted
with ease and unconsciousness

yet, they are there
growing as a whisper

and there is nothing you can do about it

terça-feira, 27 de julho de 2010

Portugal: os Números


o nosso país não é conhecido pela qualidade das suas estatísticas. quando toca à interpretação das que existem, tantas vezes surgem as dúvidas, às quais nem o INE fica imune.

este livro de Maria João Valente Rosa e Paulo Chitas procura analisar um conjunto de dados estatísticos disponibilizados através da Pordata e desenhar um perfil de indicadores sobre as tendências sociais em Portugal, no período entre 1960 e a actualidade.

para além de informativo e rigoroso, trata-se de um livro didático que explica com definições e explicações simples os conceitos utilizados em estatística, por exemplo: saldo migratório,índice sintético de fecundidade, saldo natural,etc.

percebemos o que se passou com a população portuguesa nos últimos 50 anos: porque passámos de 8,9 milhões para 10,6 milhões, porque é que a população parou de crescer de maneira significativa. percebemos como evoluiu a situação da mulher na sociedade, a relação entre casamento e divórcio, o número de filhos por casal. ficamos a saber algo mais sobre saúde, justiça, trabalho, rendimentos, etc.

é um livro que, tratando de números, não tem a aridez que se costuma colar a esta temática. aprende-se a conhecer mais alguma coisa do país ao ler este livro.

e não posso deixar de salientar que, tratando-se de um livro de grande qualidade, tem um preço que, diria, é simbólico: 5€.


Portugal: os Números
Autores - Maria João Valente Rosa e Paulo Chitas
Edição da Fundação Francisco Manuel dos Santos
Coordenação Editorial - Relógio D' Água Editores