quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Raiva


toda a raiva é branca
toda a noite pensei que a raiva é branca
um manto glauco que se abate e consome
o arco-íris de cor de que sou feito


e o corpo explode de frustração
porque a consciência impede
que a mesma se perca
e a ignorância se instale

pudesse eu vazar todo o entulho de que estou cheio
e para tanto ver na escuridão

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

fusão




e quando estivesse farto de tudo retirava-me para as tuas mãos
ou para detrás dos teus olhos, refugiava-me no teu sorriso

e quando olhasses, já estaria tão entranhado em ti
que nem ias perceber onde terminava eu e começavas tu

iriamos falar ao mesmo tempo,
dizendo as mesmas palavras,
respirar num só ar e espelhar os gestos

seria mágico passear na avenida e fazer a luz dos candeeiros apagar

terça-feira, 27 de novembro de 2012

caminho





estava numa encruzilhada sem saber
que caminho seguir

e já não bastava recordar o teu sorriso
nem o teu amor, ainda que

devesse ser suficiente.

às vezes penso em ti e faço aquelas associações ridículas
que os poetas fazem.

eles dizem:

os lábios são ave que liberta as asas ao sorrir
os olhos berlindes, cheios das tonalidades do verde e do castanho

e fazem-me sonhar.

o corpo é carícia e o abraço calor

devia ser suficiente recordar tudo isso e o mais
que se passou junto ao mar
para me fazer seguir o caminho.

perdido? não!

mas era muito bom ter a tua companhia.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

vamos falar


Fotografia de Pedro Sayanda


vamos falar um pouco mais, como se assim nos conhecessemos melhor e não fossem apenas as palavras involuntárias, de partes do teu corpo, que pretendo ler e ouvir.

com toda a atenção leio, ouço e assim te conheço.

interpreto a pontuação das tuas mãos, a respiração dos teus olhos, a frequente pausa quando te imobilizas. um ponto final revelado por um braço que pousa no colo, um travessão no movimento do teu peito, antes de se dar início ao diálogo. uma exclamação no teu olhar, uma interrogação nos teus lábios.

é belo o som de um corpo e é belo o seu silêncio.

não sei se são as palavras, o teu corpo ou a tua inteligência. acabo por me apropriar de tudo sem ter nada...

no fundo é só uma imagem ou, nem isso, uma imagem de uma imagem reflectida pelo espelho do meu desejo.

domingo, 28 de outubro de 2012

praia




foi bom esta tarde passada na praia.

por momentos esqueci estes dias e tudo o que é revoltante: as traições, as injustiças e as iniquidades.

estava ali o sol, a areia e mais lá ao fundo o mar que cumpria uma recta no horizonte. mais perto a rebentação.

havia um casal passeando, um cão levado pela trela, uma criança a brincar na areia.

nós conversámos sobre quase tudo. os nossos dias e algumas noites, a política, a amizade, os livros, a música. não falámos de amor.

tirei o pullover e fiz questão de deixar os raios de um sol outonal aquecer a minha pele. espreguicei-me várias vezes. estava quase em paz, por momentos em paz.

a certa altura o som das vozes era um gostoso ruído de fundo que me fazia sentir acompanhado.

no meu egoísmo, não disse que era bom estar ali na companhia dos amigos. saberiam eles que tantas vezes penso quantos momentos assim ainda me serão dados viver?

e não falámos de amor

porque o amor tem o seu quê de impermanência e eu não queria que aquele momento terminasse.

deixemos o amor de lado. não precisamos estar sempre a falar de amor. não faz bem consumir análise sobre análise com o objectivo de concluir que passamos grande parte da vida atrás de um sentimento que nos está sempre a fugir.

alguém decidiu dar um mergulho no mar. foi revigorante imaginar a água fria a escorrer na pele. só a imagem é de uma beleza perfeita.

acendi outro cigarro e fumei com todo o tempo do mundo.
os gestos das suas mãos davam sentido às palavras.

não ouve um fim. a praia ainda lá está e nós ainda ocupamos as mesmas cadeiras. o sol ainda brilha e o mar, sempre o mar, ainda convida. alguém dá um mergulho e as vozes ainda se ouvem.

fala-se de tudo e de nada, mas não se fala de amor.



quarta-feira, 17 de outubro de 2012

campo de flores

Fotografia de Sayanda Photography (Pedro Sayanda)


um dia vamos deitar-nos num campo de flores e olhar o céu.
daremos as mãos e seremos como duas metades de uma maçã.
e não será preciso que o olhar se encontre.
seremos um só
enquanto as flores libertam o seu perfume

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

(a) deus



disse-te adeus mas conservei uma letra
a deus o futuro, uma outra vida
a permanência dos sentimentos
que se vão dispersando no éter
e cujo eco se fará sentir no fim dos tempos

a deus encomendo a letra
que ficou comigo.
um dia irei encontrá-la de novo
em outro alguém que me dará vida...

fiquei com o (a)
(a)mor