quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

fusão




e quando estivesse farto de tudo retirava-me para as tuas mãos
ou para detrás dos teus olhos, refugiava-me no teu sorriso

e quando olhasses, já estaria tão entranhado em ti
que nem ias perceber onde terminava eu e começavas tu

iriamos falar ao mesmo tempo,
dizendo as mesmas palavras,
respirar num só ar e espelhar os gestos

seria mágico passear na avenida e fazer a luz dos candeeiros apagar

terça-feira, 27 de novembro de 2012

caminho





estava numa encruzilhada sem saber
que caminho seguir

e já não bastava recordar o teu sorriso
nem o teu amor, ainda que

devesse ser suficiente.

às vezes penso em ti e faço aquelas associações ridículas
que os poetas fazem.

eles dizem:

os lábios são ave que liberta as asas ao sorrir
os olhos berlindes, cheios das tonalidades do verde e do castanho

e fazem-me sonhar.

o corpo é carícia e o abraço calor

devia ser suficiente recordar tudo isso e o mais
que se passou junto ao mar
para me fazer seguir o caminho.

perdido? não!

mas era muito bom ter a tua companhia.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

vamos falar


Fotografia de Pedro Sayanda


vamos falar um pouco mais, como se assim nos conhecessemos melhor e não fossem apenas as palavras involuntárias, de partes do teu corpo, que pretendo ler e ouvir.

com toda a atenção leio, ouço e assim te conheço.

interpreto a pontuação das tuas mãos, a respiração dos teus olhos, a frequente pausa quando te imobilizas. um ponto final revelado por um braço que pousa no colo, um travessão no movimento do teu peito, antes de se dar início ao diálogo. uma exclamação no teu olhar, uma interrogação nos teus lábios.

é belo o som de um corpo e é belo o seu silêncio.

não sei se são as palavras, o teu corpo ou a tua inteligência. acabo por me apropriar de tudo sem ter nada...

no fundo é só uma imagem ou, nem isso, uma imagem de uma imagem reflectida pelo espelho do meu desejo.

domingo, 28 de outubro de 2012

praia




foi bom esta tarde passada na praia.

por momentos esqueci estes dias e tudo o que é revoltante: as traições, as injustiças e as iniquidades.

estava ali o sol, a areia e mais lá ao fundo o mar que cumpria uma recta no horizonte. mais perto a rebentação.

havia um casal passeando, um cão levado pela trela, uma criança a brincar na areia.

nós conversámos sobre quase tudo. os nossos dias e algumas noites, a política, a amizade, os livros, a música. não falámos de amor.

tirei o pullover e fiz questão de deixar os raios de um sol outonal aquecer a minha pele. espreguicei-me várias vezes. estava quase em paz, por momentos em paz.

a certa altura o som das vozes era um gostoso ruído de fundo que me fazia sentir acompanhado.

no meu egoísmo, não disse que era bom estar ali na companhia dos amigos. saberiam eles que tantas vezes penso quantos momentos assim ainda me serão dados viver?

e não falámos de amor

porque o amor tem o seu quê de impermanência e eu não queria que aquele momento terminasse.

deixemos o amor de lado. não precisamos estar sempre a falar de amor. não faz bem consumir análise sobre análise com o objectivo de concluir que passamos grande parte da vida atrás de um sentimento que nos está sempre a fugir.

alguém decidiu dar um mergulho no mar. foi revigorante imaginar a água fria a escorrer na pele. só a imagem é de uma beleza perfeita.

acendi outro cigarro e fumei com todo o tempo do mundo.
os gestos das suas mãos davam sentido às palavras.

não ouve um fim. a praia ainda lá está e nós ainda ocupamos as mesmas cadeiras. o sol ainda brilha e o mar, sempre o mar, ainda convida. alguém dá um mergulho e as vozes ainda se ouvem.

fala-se de tudo e de nada, mas não se fala de amor.



sábado, 20 de outubro de 2012

Jaroussky - Ho perso il caro ben (Handel)



Dopo d'aver perduto il caro bene
saria grande il conforto,
se si perdesse ancora
la memoria funesta;
ma oh dei! questa pur resta,
e chi fu nell'amor sì fortunato
non può a gli Elisi ancor'esser' beato.

Ho perso il caro ben',
son l'ombre il mio seren,
pietà del mio dolor.
S'unisca al mio martir,
il vostro bel soffrir,
soccorso a questo cor,
soccorso al mio dolor.

*******
After having lost my dear beloved,
I would find great solace,
If I only could lose
The fatal memory of her!
That memory, oh gods, 
Stays with me, tormenting me.
And so, even if my beloved were happy,
Not even in Heaven could I be happy.

I've lost my dear beloved,
And my sky is dark.
Ah, pity my sorrow!
Oh that in martyrdom I may unite with her suffering!
Help for this heart,
Help for my sorrow!

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

campo de flores

Fotografia de Sayanda Photography (Pedro Sayanda)


um dia vamos deitar-nos num campo de flores e olhar o céu.
daremos as mãos e seremos como duas metades de uma maçã.
e não será preciso que o olhar se encontre.
seremos um só
enquanto as flores libertam o seu perfume

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

(a) deus



disse-te adeus mas conservei uma letra
a deus o futuro, uma outra vida
a permanência dos sentimentos
que se vão dispersando no éter
e cujo eco se fará sentir no fim dos tempos

a deus encomendo a letra
que ficou comigo.
um dia irei encontrá-la de novo
em outro alguém que me dará vida...

fiquei com o (a)
(a)mor




terça-feira, 25 de setembro de 2012

arrefecidos



no outono
o ar arrefeceu,
as cores arrefeceram,
tu e eu,
no Outono,
colhemos os últimos frutos,
aprendemos as palavras finais.
no outono
o mar está mais frio,
o vento ameaça,
abraço-me,
protejo-me.
no outono,
de ti levo as folhas que foram ardendo no Verão,
vão caíndo pelo caminho ao sabor dos dias.
há novos silêncios.
no outono
tu e eu
arrefecidos

sorriso


s

sorri para mim hoje e todos os demais dias
em que olhar o teu rosto
e sentir um sobressalto
porque o teu olhar é pacífico
e cheio de luz solar
que aquece e conforta.
e eu adormecer assim,
olhando o teu sorriso,
vou sonhar contigo
e a noite será de paixão

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

fumos de revolta




a sensação de que não vamos a lado nenhum é cada vez maior.

no espaço de 5 dias, os portugueses foram infomados sobre a proposta de novas medidas de austeridade, as quais conseguiram o efeito de suscitar a crítica negativa e a oposição de personalidades de todos os quadrantes do espectro político em Portugal.

registo este facto porque é sinal de que ainda há quem tenha a decência de pensar pela própria cabeça e não estar sob o jugo do interesse partidário.

as novas medidas constituem uma violência que afecta sobretudo os mais desfavorecidos e a classe média. a lógica é simples: ir directamente ao bolso dos trabalhadores por conta de outrém, de forma rápida e limpa. É mais fácil obter receitas desta forma do que repensar o estado e olhar às suas ineficiências e gorduras.

O aumento da taxa para a segurança social de 11% para 18% constitui uma violência sem precedentes sobre os trabalhadores, sob todos os pontos de vista e sobretudo quando, em paralelo, assistimos à redução das prestações sociais e aos cortes em áreas como a Saúde e a Educação.

relativamente às empresas, a redução da TSU suscitou opiniões convergentes: só marginalmente poderá contribuir para a manutenção do emprego, pelo que continuaremos a assistir ao aumento do desemprego, numa conjuntura em que a maioria das empresas estão cautelosas com reduzido acesso ao crédito bancário.

ao anúncio feito pelo primeiro ministro, somamos agora as medidas propostas pelo ministro das finanças que redundam em mais aumento de impostos.

estamos a ser esmifrados num torno accionado pela tróika e pelo governo. sem perspectivas de que os sacrifícios pedidos resultem a médio ou a longo prazo numa melhoria das condições de vida das pessoas.

o governo não enfrenta os lobbys, os interesses, a banca, as grandes empresas e os grupos ecnómicos.

o governo não tem a mínima noção do impacto das suas medidas no cidadão comum. não me refiro apenas ao impecto no rendimento disponível, mas ao impacto psicológico. a desmotivação, a sensação de injustiça e a revolta social nascem quando as pessoas interiorizam que estão a ser governadas por políticos que arrumaram a ética na gaveta.

a crise que era económica, mostra sinais de rapidamente se poder tornar numa crise social grave. Os sinais estão à vista, com esta tendência para a convergência numa frente comum de vários sectores e sensibilidades da sociedade portuguesa. No horizonte, fumos de revolta.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

um / dois

a fatal ilusão de crer que somos um
quando dois é a verdade que somos
e experimentar essa certeza
no susto do pensamento adivinhado

domingo, 2 de setembro de 2012

aperto



agora agarra-me o silêncio
num aperto
e impede-me de dizer
aquelas palavras necessárias...

nem sei quais são!

uma vez a desolação aqui,
como pedra carregada em ombros
que poderá movê-la?
que poderá tirá-la do caminho?
que poderá desfazê-la em pó?

no meu olhar já muito pouco é teu

segunda-feira, 4 de junho de 2012

vencedores




não vou deixar-te escorrer por mim como água
não vou sentir a tua voz como dor
nem o teu sentimento como agressão
na procura dos corpos o infinito prende-nos
na procura dos espíritos desfazem-se trevas
e num momento é a eternidade

uivam os cães, abate-se a tempestade
mas juntos fazemos a cama e entrelaçamos a esperança
juntos a nossa solidão é mais poderosa
e no beijo dois regatos unem-se
e correm para a foz.
o teu sorriso e o teu olhar detêm-me
as tuas mãos libertam
e depois da pretensa morte
um ressuscitar com brilho de madrugada
e depois de um sono sem sonhos
habitado pelos ultimos heróis
somos vencedores do amor em mais uma história

sábado, 2 de junho de 2012

permanecer


nunca sonhei assim


com tanta calma e paixão
com tanta cor, emoção
sem consciência do fim

um sonho, colorido por nós.
Cores intensas e cruas,
diluídas em palavras quentes
ocupando a tela, a vida, de lés a lés

como se não houvesse outro fim
como se só plenitude: tu e eu

dizem que nada perdura, nada é eterno, tudo se esvai...
queria
não acordar, permanecer

terça-feira, 15 de maio de 2012

castelo

o castelo caiu, pouco resta. estás satisfeito, feliz? aplacaste os teus fantasmas, realizaste os teus sonhos? e o amor? que faço com o meu? aqui sentado, neste horizonte, mar de gente, tudo é deserto,
com tristeza

quinta-feira, 10 de maio de 2012

breve

desde que estás comigo, nunca mais me senti só!

plenitude

em todas as vozes, procuras a Voz. em todas as pinturas, a vibração da Cor. em todos os relatos, a História perfeita. em todos os sons a Música das esferas e em todos os outros, o outro que te completa e perguntas se existe uma Alma, se ela pode ser definida. diz-me! o que vibra em ti quando encontras? é uma sensação física, que te assusta, e arrasa poder pensar todo o mundo: natural e construído, poder pensar-te a ti, com a simpliciade do ser, estar, existir, com a simplicidade do momento sem mais, uma pelnitude que é

quarta-feira, 21 de março de 2012

poesia dura


a tua poesia é dura.
quando toca a minha pele,
a tua poesia deixa a marca das palavras roxas.
essas palavras são algozes de pensamentos,
em pequenas sílabas cristalizam um mundo.

a tua poesia é dura como nódoas negras
e nem por isso gosto menos dela.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

encantamento


deixa-me dissipar a nuvem
que cobre o lago.

ao luar, eu, sacerdote,
num gesto largo, percorro o céu,
lanço ao ar, na ponta do objecto afiado, um encantamento,
que como pó de estrelas cai sobre as águas quietas.

os meus pés mergulhados e o teu corpo submerso... o teu corpo...

queria ressuscitar a tua vida:
ao corpo dar a voz
à voz imprimir o gesto,
com o gesto rasgar o olhar
e no olhar conjurar a alma.

vivesses de novo tu para mim,
morreria eu por, de novo, não saber amar-te.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

ou


priveligiamos a amizade
e sobre ela o amor
e sobretudo a paixão

ou não?!

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

of all my uncertainties


there should be answers
free associations of words
like glimpses, sparkles, explosions
words that could convene some meaning
to my eerie thoughts about you

“you”! is not simple
“you”! is a world in itself
and traveler i am.
in your life you can only chart a small portion of land,
not to mention the big ocean, the sea.
i will know little about you,
a small fraction, an idea
and eventually, even less about me.
'though i will try,
and know more.

see, i am a selfish bastard!
i don’t know a thing about meaning, about you.
less about us...
there are interesting thoughts
about us!

you keep running away
looking for yourself
writing helpless sentences about life and death,
courage and deceit,
passion and love and betrayal and hate
throwing cries of help to the wind
looking to reach out to someone that can:
teach, dominate, trust, learn, share, enjoy, contain
and
love you

we never talked about love,
once or twice we talked about passion.
passion is an understatement,
food for thought,
when it comes to us
an uncertainty,
not even that!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

murmúrio




antecipo, escrevo a história,
leio um guião que só eu sei.
Mudo os móveis, mudo as peças,
sigo caminhos
quase me perco.

volto sempre,
rasgo a história.

um murmúrio basta,
fico quieto.

se te amo, luto por ti
e se se penso que te vou perder...
que luta esta, afinal,
que me deixa exausto,
sem ar, sem norte, sem força.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

as contas do presidente da república


soube hoje que o presidente da república pensa que, provavelmente, os rendimentos que aufere das suas pensões, que recebe merecidamente, não chegam para cobrir os seus gastos.

de seguida ouvi vários comentadores e personalidades pronunciarem-se sobre essa intervenção do presidente, considerando que era negativa, ultrajante, humilhante, reprovável, tendo em consideração que o ordenado médio dos Portugueses é pouco mais de 700 euros.

O nosso presidente da republica tem exercido o seu mandato, optando por uma postura convictamente discreta e exercendo a sua "influência" atrás das portas do palácio de belém. aparentemente, assim terá agido no que se refere ao orçamento de estado para 2012 e agora no caso do acordo da concertação social.

há uma tenaz que se abateu sobre o país e sobre os trabalhadores por conta de outrém e sobre os desempregados: não é a crise internacional, não é a Tróika, não é a senhora Merkell que constituem os culpados da situação em que vivemos. é o governo, é o presidente, são várias estruturas e organismos da sociedade, os fazedores de opinião e os mentores de desinformação, estes sim, são os principais responsáveis pela tenaz que nos vai efectivamente, fazer ficar ainda mais pobres do que já eramos e regredir para níveis de há 30 anos.

para pessoas como o presidente, que fazem estas declarações consciente ou insconscientemente, as pessoas e as suas dificuldades são, de facto, realidades muito longínquas e arredadas, das quais têm uma consciência teórica mas, cuja verdade dura não abarcam de todo, porque não convivem com ela, fechados como estão nos seus mundos protegidos de agendas protocoladas, programadas ao milímetro e onde a realidade é um cenário previamente pintado com os tons apropriados à ocasião.

o presidente diz que o dinheiro que justamente lhe é pago não chega. O que eu recebo já não chegava e a partir deste ano ainda vai ser mais difícil que chegue e o de milhares de outras pessoas não vai chegar de todo.

há mais pessoas que, este ano, vão ficar desempregadas, que vão ser despedida; há mais pessoas que vão perder as suas casas, que vão ter de mudar os filhos de escola, que vão pedir subsídios para os livros, que vão pagar mais por actos médicos no Serviço Nacional de Saúde; há mais pessoas que vão passar fome e solicitar apoio à Segurança Social, à Igreja, às Associações; há mais pessoas que vão virar pedintes e mais pessoas que se vão tornar criminosos e mais pessoas que se vão prostituir; há mais miséria a vir por aí.

o presidente diz que o dinheiro não lhe chega para pagar as contas, os governantes falam na emergência nacional e na austeridade, culpam o exterior pelos nossos males mas nenhum consegue propôr uma solucção a médio prazo que nos dê uma perspectiva de melhoria, enfim, uma esperança. A solução é ir ao bolso dos trabalhadores em geral e dos trabalhadores por conta de outrém em particular.

o presidente anda tão alheado da realidade dos cidadãos como os outros governantes e nós, cá andamos alheados do que nos estão a fazer, porque andamos a tentar que o dinheiro chegue para pagarmos as contas.

a propósito, acho que hoje optei pela monarquia. os reis são pagos pelo povo mas dão mais garantias de estarem melhor preparados para exercer o seu cargo.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Impressão


às vezes é difícil chegar a ti.

mas nas tuas mãos há um sossego justo
que acalma e dá certeza
e nos teus dedos um toque apaziguador.
vão-se os pensamentos, as dúvida, as incertezas,
as angústias e os medos.
que me resta no cérebro quando me tens nas tuas mãos?
que me resta da alma, se minha já não é?
disperso pelos teus dedos, como por entre os ramos de uma árvore,
procuro o descanso, a calma, e a paz.